quarta-feira, 21 de setembro de 2011

CARACTERÍSTICAS DO TEXTO TRADICIONAL EM CORDEL


   A PEQUENA EXTENSÃO da obra, com poucas páginas, poucos personagens e poucos conflitos (mais próxima do conto);
     UMA VARIANTE LINGÜÍSTICA MARCADA PELO REGIONALISMO E POR UMA LINGUAGEM NÃO-CULTA.
     A ORALIDADE: Trata-se de um a literatura feita para o ouvido e não para os olhos. Citação: “O poeta Manoel de Almeida Filho, entrevistado por Mauro Almeida, explica que: […] a grande maioria dos nossos fregueses lê o livro cantando. Como a gente lê, eles aprendem as músicas dos violeiros, e eles cantam aquilo. […] E, em casa reúnem uma família, três, quatro, e cantam aquilo, como violeiro mesmo […] O folheto tem esta doçura do verso. E o povo nordestino se acostumou a ler o verso. Então o livro em prosa mesmo, ele não gosta e nem gosta do jornal, a notícia do jornal. […] Ele não entende. […] Porque está acostumado a ler rimado, a ler versado. […] Aquela notícia não é boa para ele, o folheto sim, porque o folheto ele lê cantando. (Almeida, 1979, f. 202) “.
     A RIMA A SERVIÇO DA MEMÓRIA.
     A SEXTILHA: 80% dos cordéis (Joseph Luyten, O que é literatura de cordel, coleção Primeiros Passos)
     O Nordeste como palco por excelência das narrativas
  VISÃO DE MUNDO POPULAR. Citação: “A superioridade dos folhetos deve-se também ao fato de eles apresentarem as notícias interpretadas segundo os valores compartilhados pelo público“.
Economia (na linguagem e na exposição de elementos): O folheto é sucinto e direto, rejeitando os circunlóquios, as perífrases; foco apenas no principal, no necessário: 'Se a espingarda não vai atirar no conto, convém tirá-la da sala' (Tchekov).
Os cordelistas preferem a ordem sintática mais comum: artigo + substantivo + verbos + objetos verbais + adjuntos adverbiais
     A simplificação do enredo (enredos não complicados)
     Predomínio da linearidade temporal (não é comum os flashbacks ou a montagem paralela)
     Literatura exemplar: como a fábula, o cordel passa mensagens; O final feliz (punição do mal; recompensa do bom); a ausência do narrador neutro, que apenas conta a história, deixando para o leitor o julgamento. Comentário: Ao narrador cabe também interpretar as atitudes dos personagens e o sentido geral da narrativa, sobretudo no início e no final do texto, quando se dirige ao leitor para tecer considerações de ordem ética ou moral.
     Maniqueísmo: o mundo dividido em bem e mal
     A opção preferencial pelos pobres, pelos oprimidos: implicações: a) o vilão é o patrão, o rico, o coronel, etc; b) o herói é o amarelinho astuto (João Grilo, Canção de Fogo, Pedro Malasartes, etc.), uma espécie de vingador do povo.
     Conservadorismo: ideologia católica, resíduos da sociedade patriarcal (ginofobia ou infantilização da mulher, racismo, etc.);
     Religiosidade popular: superstições com liturgia, canonização sem o aval de Roma (Padre Cícero, Antônio conselheiro, o cangaceiro Jarararaca), etc.

ESTROFES E ESQUEMAS RÍMICOS MAIS FREQÜENTES NO CORDEL (E NA CANTORIA)

a)     Sextilhas: Joseph M. Luyten, em O que é literatura de cordel, informa que 80% dos cordéis vêm em forma de sextilha, assim chamada a estrofe ou estância de seis versos. Cada linha dessas estrofes geralmente possuem sete sílabas métricas (chamada de redondilha maior), com rima nos versos pares (segundo, quarto e sexto versos). Exemplo:
Quem não levar um cordel
De jeito nenhum me ataca,
Também não vou condenar
Sua teoria fraca,
Mas vai ficar com o rabo
Igualmente o da macaca.
           (Cordel “História de Jesus, o Ferreiro e a Macaca”, de José Costa Leite).
 
           Apesar do predomínio das sextilhas, outros tipos de estrofes também podem ser observadas nos cordéis, merecendo destaque as seguintes:

b)    Quadra: Estrofe de quatro versos. Foi bastante utilizada nos inícios do cordel, tendo seu uso decaído com o tempo. Nas quadras, há a obrigatoriedade da rima em pelo menos dois versos (o segundo com o quarto), podendo o cordelista optar pela rima em todos os versos (esquema ABAB ou ABBA). Exemplo:
           A Luíza do Zé Braz,
           Neta do Zé do Mogêro,
           Era a moça mais bunita [sic]
           Lá da Serra do Perêro.
           (Cordel “A Estátua do Jorge”, de Alberto Porfírio).

c)     Setilha: é assim denominada a estrofe de sete versos. Caso o poeta decida rimar todos os versos, em geral o antepenúltimo e a penúltimo irão rimar entre si (Esquema ABABAAB). Exemplo:
            Lá na Mancha, Espanha, havia
Um tal Quesada ou Quixano,
Que de noite e de dia,
E também ano após ano,
Compulsivamente lia
Obras de cavalaria
Vertidas pro castelhano.
(Cordel “Dom Quixote de la Mancha”, de Stélio Torquato Lima).

d)    Oitava: Estrofe composta de oito versos. Na variante denominada de “oitavas-a-quadrão”, o esquema rímico é o AAABBCCB, encerrando-se a estrofe necessariamente com a expressão “nos oito pés a quadrão”. Exemplo:
            Eu canto com Zé Limeira
Rei dos vates do Teixeira
Nesta noite prazenteira
Da lua sob o clarão
Sentindo no coração
A alegria deste canto *
Por isso é que eu canto tanto *
Nos oito pés a quadrão.
           (Cantoria entre José Gonçalves e Zé Limeira)

e)     Décima: Estrofe de dez versos, cada um deles apresentando dez ou sete sílabas métricas. O esquema rímico mais empregado é o ABBAACCDDC. Na cantoria, é bastante empregada quando é lançado um mote para ser desenvolvido (glosado) pelo cantador. Exemplo:
 
MOTE: O regime comunista / é contra a religião
 
GLOSA
Nas folhas de uma revista
li um conselho exemplar
que ninguém deve aceitar
o regime comunista
quem se assinar nesta lista
ficará sem proteção,
pois a negra escravidão
grita ali em vozes altas
e além de outras grandes faltas
é contra a religião!
(Poema “Glosas sobre o Comunismo”, de Patativa do Assaré).

f)     Galope à beira-mar: Estrofe de 10 versos, cada um deles apresentando 11 sílbas métricas (hendecassílabos), terminando sempre com a expressão “galope à beira-mar” ou, simplesmente, com a palavra "mar". É típico das cantorias. O esquema rímico é o mesmo da décima clássica: ABBAACCDDC. Exemplo:
            Então, meia-noite, anjos emissários
Em conta de sete, de aura azulada,
Falaram pra ele, punhando as espadas:
És tu o escolhido, bispo do rosário.
Terás de fazer o teu inventário
E reconstruir o universo sem par
Pra diante de Deus tu te apresentar
Vestido em teu manto vermelho-centelha,
Entrou no hospício da praia vermelha
Cantando galope na beira do mar.
(Música “Galope Beira-mar para Bispo do Rosário”, de Wilson Freire e Antonio José Madureira)
a

CICLOS TEMÁTICOS DO CORDEL


Embora os cordelistas possam escrever sobre qualquer assunto, há alguns temas que, de tão freqüentes, fundam ciclos autônomos no âmbito do cordel. A classificação desses temas é bastante polêmica, havendo várias discordâncias entre os pesquisadores. Entre os grandes ciclos temáticos do cordel, porém, podem ser destacados os seguintes:

a) ABCS: Nessa modalidade do cordel, cada estrofe se inicia com uma letra diferente, obedecendo-se a seqüência alfabética (a primeira estrofe inicia-se com a letra A, a segunda com o B, etc.). Destinada a louvação de uma personagem histórica, instituição, etc., tem sido empregada há bastante tempo pelos cordelistas. Câmara Cascudo, em Vaqueiros e cantadores, defende que a função primitiva dessa modalidade deve ter sido mnemônica, ou seja, de auxílio à memorização. Exemplos: “ABC do Nordeste Flagelado” (Patativa do Assaré); “ABC da Saudade” (Luiz da Costa Pinheiro); “ABC dos cornos” (Luiz Alves). 

b) ASSOMBRAÇÃO: Os cordéis de assombração tratam do mundo das almas penadas, dos fantasmas, dos maus-espíritos e de outras criaturas assustadoras (lobisomem, mula-sem-cabeça, bicho papão, etc.). São também célebres os casos das botijas perdidas guardadas pelo diabo. Exemplos: “Saiona, a mulher dos olhos de fogo” (Rouxinol do Rinaré); “Dois meninos do sertão e o lobisomem fantasma” (Rouxinol do Rinaré).

c) ATUALIDADES: Nessa modalidade, os assuntos são os temas contemporâneos, podendo ser entendida como uma variante dos cordéis de circunstância. As descobertas da ciência, as novas tecnologias e o relato de fatos atuais constituem alguns dos assuntos presentes nessa modalidade cordelística. Exemplo: “Cordel do Big Brother: as Bestas do BBB” (Gustavo Dourado).

d) BIOGRAFIAS: Relatos de fatos relevantes e/ou pitorescos de personalidades históricas ou contemporâneas. Também podem tratar da vida de pessoas menos conhecidas, mas com as quais o autor mantém algum laço afetivo. Exemplos: “A incrível história de Emiliano Zapata” (Paiva Neves); “Simon Bolívar: o libertador da América” (Jorge Furtado).

e) CANGAÇO: O foco dessa modalidade de cordel recai sobre a figura de vários cangaceiros famosos, como Maria Bonita, Antônio Silvino, Corisco e Dadá, Sinhô Pereira e Jesuíno Brilhante, entre outros. Todavia, é principalmente sobre Lampião, tido como o “rei do cangaço”, que escrevem os cordelistas, muitas vezes tratando das desventuras do cangaceiro no mundo de além-túmulo. Exemplos: “A chegada de Lampião no inferno” (José Pacheco da Rocha); “A chegada de Lampião no céu” (Rodolfo Coelho Cavalcante); “Jararaca: o cangaceiro que virou santo” (José Lacerda).

f) CIRCUNSTÂNCIA: Nos cordéis de circunstâncias, os poetas versam sobre fatos recém-ocorridos, visando informar a população sobre um acontecimento de grande impacto social. Dessa forma, os cordéis de circunstâncias atuam como meios de comunicação de massa, como o jornal, o rádio e a televisão. É importante lembrar, a propósito, que nas primeiras décadas de seu surgimento o cordel muitas vezes foi o veículo de informação das populações mais distantes. Muitos nordestinos, por exemplo, tomaram conhecimento da morte de Getúlio Vargas primeiramente através do cordel "A lamentável morte de Getúlio Vargas", do pernambucano Delarme Monteiro da Silva, escrito no mesmo dia em que as rádios divulgavam o suicídio do presidente e que vendeu 70.000 exemplares em apenas 48 horas.

g) ESPERTEZAS: “Parentes” da novela picaresca, cujo exemplo maior é o Lazarrillo de Tormes (1554), os cordéis que versam sobre espertezas frequentemente tratam de uma personagem que contorna a pobreza enganando os ricos (ou o diabo). É a fraqueza vencendo poder através da astúcia. Essa modalidade pode compreender o ciclo do demônio logrado, referido por Câmara Cascudo na introdução de Contos Tradicionais do Brasil. Exemplos: “Artimanhas de Pedro Malazartes e o urubu adivinhão” (Klévisson Viana); “As proezas de João Grilo” (João Martins de Athayde).

h) FANTASIAS: Trata de reinos encantados e/ou de lugares nos quais coisas fantásticas podem ocorrer a qualquer momento, muitas vezes sendo povoados pelas fadas, pelos gênios e também pelas bruxas. Nessa perspectiva, pode ser inserido no universo das fantasias o país de São Saruê, país de faturas que alimenta o sonho do sertanejo pobre e vitimado pela seca. Exemplos: “Viagem a São Saruê” (Manoel Camilo dos Santos); “A princesa da pedra fina” (Leandro Gomes de Barros).

i) HEROÍSMO: Trata das façanhas de indivíduos que se destacam pela coragem, pela fé ou pela pureza de sentimentos. Entre os heróis que protagonizam essa modalidade de cordel inserem-se Rolando (ou Roldão), Oliveiros e os demais guerreiros de Carlos Magno (os célebres “Doze Pares de França”). Exemplos: “O príncipe Roldão no Leão de Ouro” (João Melchíades Ferreira da Silva); “Juvenal e o dragão” (Leandro Gomes de Barros).

j) HISTÓRICOS: Tratam-se cordéis que recontam episódios históricos ocorridos no Brasil ou em outro país. Essa modalidade do cordel é analisada por Mark Joseph Curran na obra História do Brasil em cordel, destacando o autor como vários momentos de nossa História são descritos em obras de cordel, incluindo a Guerra de Canudos, o governo de Getúlio Vargas e a Ditadura Militar pós-64. Exemplos: “A Guerra de Canudos” (João Melquíades Fereira da Silva); “A volta de Jânio Quadros, a esperança do povo” (Joaqim Batista de Sena).

k) HUMOR: Essa modalidade apresenta um grande número de variações, desde o simples gracejo até à picardia mais grosseira e a obscenidade. De um modo geral, diz respeito aos cordéis cujo objetivo principal é produzir o riso. Entram nessa categoria os cordéis sobre os cornos, aqueles que tratam das sogras, os de mal-entendidos e os que versam sobre figuras caricatas, como o “Seu Lunga”. Exemplos: “O esperado encontro de Coxinha, o homem tesoura, com seu Lunga, o rei do mau humor” (Rouxinol do Rinaré); “O erro da vendedora” (Chico Pedrosa).

l) INTEMPÉRIES: Tratam dos grandes fenômenos da natureza que causam destruição e sofrimento humano, como as secas, as inundações, os terremotos e os furacões. Sendo o cordel cultivado principalmente no Nordeste, a seca, logicamente, é o fenômeno mais referenciado nos cordéis. Exemplos: “A seca do Ceará” (Leandro Gomes de Barros); “A tragédia das enchentes em todo Rio de Janeiro” (Apolônio Alves dos Santos). 

m) PELEJAS: Tratam de disputas entre dois cantadores renomados com o fim de demonstrar quem é mais hábil na arte do repente. As pelejas envolvem frequentemente a auto-louvação e a diminuição do competidor, cabendo ao desafiado inverter essa situação, ou seja, mostrar-se superior ao seu desafiante. Exemplos: “Peleja de Zé Pretinho com Manuel do Riachão” (Leandro Gomes de Barros); “Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum” (Firmino Teixeira do Amaral).

n) RELIGIOSIDADE: São cordéis que tratam da relação do povo com o sagrado, trazendo sempre um mensagem edificante e uma desaprovação do mal. Alguns cordéis tratam de versões de passagens bíblicas; outros tratam da vida de personagens ligadas à religião – Jesus Cristo, Buda, etc. Nesses cordéis, predomina uma visão identificada com a religiosidade popular, tendendo ao sincretismo de práticas (candomblé com catolicismo, por exemplo) e da mistura de superstição e religião. Algumas figuras da religiosidade popular são tão constantes nos cordéis biográficos que acabam formando um ciclo autônomo, como é o caso do Padre Cícero, de Frei Damião e de Antônio Conselheiro. Exemplos: “Padre Cícero, o santo do povo” (Arievaldo Viana); “Frei Damião, o santo do Nordeste” (Varneci Santos do Nascimento).

o) ROMANCES: Tratam das venturas e desventuras de amantes com o fim de viverem sua paixão. Exemplos: “Coco Verde e Melancia” (José Camelo de Melo Resende); “Pedrinho e Julinha” (José Camelo Resende).

ORIGEM DO CORDEL NORDESTINO II


 
        Márcia Abreu, com o fim de demarcar a diferença em relação à sua congênere portuguesa, considerada por ela totalmente diferente da nossa, prefere denominar nossos cordéis de “literatura de folhetos”.
       Para ilustrar como as formas e gêneros do cordel brasileiro são oriundos da cantoria ou repente, Márcia Abreu lembra que “sextilha heptassilábica” (estrofe de seis versos, todos em redondilha maior) há muito já era empregada nas cantorias, constituindo normalmente  o estilo cujos cantadores iniciam as suas pelejas.
       Outra demonstração da influência da cantoria sobre o cordel nordestino diz respeito à “deixa”, assim chamado o verso inicial da estrofe que rima com o último da estrofe anterior. Essa “deixa”  teria origem no leixa-pren comum nas pelejas, pois o desafiado costuma retomar o que seu desafiante acaba de afirmar com o fim de rebater seu opositor.. Incorporada à sextilha do cordel por Silvino Pirauá, o leixa-pren foi depois simplificada por Zé Duda, reduzindo-se apenas à obrigatoriedade de rimar o último verso com o primeiro. Vejamos um exemplo extraído de Os sertões (1998, p. 135), de Euclides da Cunha:

A PROVOCAÇÃO:
“Nas horas de Deus, amém,
Não é zombaria, não!
Desafio o mundo inteiro
Pra cantar nessa função!”

A REBATIDA:
“Pra cantar nessa função,
Amigo, meu camarada,
Aceita teu desafio
O fama desse sertão!”